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domingo, 27 de março de 2011

Alerta sobre suplementos da moda (Parte 2 - O Lipo 6 Black).

Olá, queridos leitores!

Dando continuidade a esta série de matérias sobre os suplementos que estão na moda nas academias ao redor do Brasil, hoje vamos discutir um pouco sobre o Lipo 6 Black (e toda a família Lipo 6). Trata-se de um produto da classe dos termogênicos, ou seja, aqueles suplementos que prometem aumentar a termogênese (aumentar o gasto energético, desperdício de energia e acelerar o metabolismo).

Figura do site oficial. Você se arrisca a encarar o sujeito da figura?
Os termogênicos promovem um efeito muito bom para quem quer aumento de energia e aquele "up" na disposição para malhar, assim como propiciam ao emagrecimento. Os ingredientes que compõem esse tipo de produto são basicamente estimulantes do Sistema Nervoso Central (SNC), com ação de estimular a liberação de adrenalina e noradrenalina, e alguns até possuem função semelhante à desses neurotransmissores presentes no nosso corpo. Essas duas substâncias (adrenalina e noradrenalina) tem função importantíssima no aumento do estado de alerta, na capacidade de realizar exercício e na mobilização de gordura para servir como fonte de energia. Outros benefícios que os princípios ativos dos termogênicos podem oferecer é a inibição do apetite, por exemplo.

Ainda não é totalmente comprovado que substâncias como a cafeína, sinefrina, L-tirosina e ioimbina possuem efeito emagrecedor, mas a maioria dos termogênicos possuem estes ingredientes na composição e eles realmente parecem ajudar na perda de gordura. O perigo do uso de termogênicos é quando estão presentes substâncias que comprovadamente podem comprometer a saúde mental e cardiovascular de indivíduos sadios.

E é aí que entramos na família Lipo-6. Trata-se de um suplemento proibido para venda no Brasil. Mas por quê?! Será que há algum motivo para ele ser proibido mesmo? E será que ele é o único que realmente funciona? Vale a pena arriscar a saúde em busca de um resultado possivelmente maior?

A família Lipo 6 Black é constituída por um ingrediente chamado 3,5-Diiodo-L-Tironina. É um hormônio mais conhecido como T2. Ele tem função de modular a atividade da glândula Tireóide. A glândula Tireóide é localizada na região do pescoço e é responsável pelo controle do metabolismo do seu corpo. Uma maior atividade da Tireóide faz a pessoa ser mais ativa e geralmente mais magra (por gastar mais energia), já uma menor atividade resulta no contrário (pessoas mais calmas, sonolentas e menor gasto energético). Ou seja, o Lipo-6 Black possui atividade pré-hormonal estimulando a ação da Tireóide. O problema disso? Qualquer desbalanço hormonal pode induzir a quadros de doenças endócrinas, como uma hipo ou hipertireoidite. É o barato que sai caro.

E por mais que as pessoas pensem "Ah, mas isso não vai acontecer comigo, vou tomar somente 1 frasco do produto, só 1 mês", a possibilidade de alteração na função da Tireóide pode acontecer nesse curto espaço de tempo. A pessoa pode ser geneticamente predisposta a desenvolver algum problema tireoidiano e o simples uso do suplemento pode desencadear esse processo que talvez só acontecesse em outro estágio de vida ou sequer se manifestasse.

Já os termogênicos que são permitidos para venda no Brasil passam por um processo de registro mais rigoroso quanto às substâncias neles presentes, fornecendo mais segurança para quem os toma e, com exceção dos ingredientes perigosos, possuem exatamente a mesma formulação dos "proibidos". O que se vê na prática é que o efeito do uso de um bom termogênico legal pouco difere do resultado de um termogênico ilegal. O que enfraquesse aquela máxima de que: "O proibido é sempre melhor".

O importante é sempre consultar um nutricionista para indicação do uso de um suplemento bom e confiável, que não irá prejudicar sua saúde. Lembrem-se sempre, a saúde vem em primeiro lugar, e por consequência leva aos resultados estéticos esperados.

Referências

GUYTON, A. C.; HALL, J. E. Tratado de Fisiologia Médica. 10a ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2002.
GOLDSTEIN, E. R. et al. International society of sports nutrition position stand: caffeine and performance. Journal of the International Society of Sports Nutrition. V. 7, n.5, 2010.
INCHIOSA JR., M. A. Experience (Mostly Negative) with the Use of Sympathomimetic Agents for Weight Loss. Journal of Obesity. 2011.
LOMBARDI, A. et al. 3,5-Diiodo-L-thyronine rapidly enhances mitochondrial fatty acid oxidation rate and thermogenesis in rat skeletal muscle: AMP-activated protein kinase involvement. Am J Physiol Endocrinol Metab 296: E497–E502, 2009.
RASCOVSKI, A. et al. Eficácia e Tolerabilidade das Substâncias Calorigênicas: Ioimbina, Triiodotironina, Aminofilina Combinada a Efedrina e Fenilpropanolamina no Tratamento da Obesidade a Curto Prazo. Arq Bras Endocrinol Metab 2000;44/1:95-102.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Alerta sobre suplementos da moda (Parte 1 - O Jack3d).

Olá, pessoal!

Como prometido, hoje dedico um post inteirinho aos suplementos alimentares. Mais especificamente os suplementos que estão dando o que falar nas academias, os suplementos da moda. Como é um assunto muito grande e eu não gostaria de abordar resumidamente, nesse primeiro post falarei somente sobre o Jack3d, mas citarei todos os que ainda vou escrever: Jack3d, Lipo 6 Black, Shotgun, The Curse, D-Drol, M-Drol, Thermo Pro, naNO Vapor e OxyElite-Pro.

Resolvi falar sobre esse assunto porque é assombroso como o consumo de suplementos sem orientação profissional vem crescendo. Segundo amigos professores de Educação Física que trabalham em academias e até por minha própria experiência lidando com essas pessoas, é mais do que comum a pergunta: "Comecei a malhar, o que é que eu devo tomar?"

Essa pergunta parece inocente mas reflete a supervalorização da suplementação em detrimento do treinamento físico per se. Claro que usar suplementos pode ser aquele estímulo a mais para cumprir aquela promessa de início de ano ao entrar na academia (e é excelente quando isso acontece), mas as pessoas não sabem dosar isso. Posso afirmar que um dos (muitos) fatores para a importância exacerbada da suplementação em praticantes de academia é a FALTA DE ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL. Todo mundo que estuda exercício físico sabe da famosa Tríade do exercício físico - Exercício + Alimentação + Descanso = Resultado. Ou seja, quer alcançar os seus objetivos? Treine bem, se alimente bem e descanse bem. Podemos incluir na Alimentação a Suplementação bem feita e orientada por um nutricionista capacitado.

Apesar de não trazerem benefícios quando usados de maneira equivocada, são poucos os riscos à saúde que a maioria dos suplementos alimentares podem causar. Sugiro que releiam essa frase e acrescente a palavra "legalizados" entre as palavras "alimentares" e "podem". É aí que está o perigo. Todos estes suplementos que citei no começo do post são PROIBIDOS para comercialização no Brasil (isso não impede que lojas sem escrúpulos vendam estes produtos). A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) não permite que eles sejam vendidos em território nacional. Os motivos serão explicados agora.

Antes de tudo, é comum as pessoas subjulgarem a ANVISA no que tange a comercialização de suplementos. Talvez porque tenhamos um sentimento incubado de inferioridade em relação aos Estados Unidos e seus órgãos de fiscalização, pois lá todos estes suplementos são permitidos. Saibam que não há necessidade de comprovação científica para comercializar suplementos nos EUA, e se uma substância pode fazer mal, eles esperam que faça para depois proibi-la. Coisa que não acontece no Brasil. Não que a ANVISA seja perfeita (longe disso), mas toda moeda tem seus dois lados.

Para começar, o Jack3d. Este suplemento já ganhou fama em todas as academias e é bastante consumido. Pode ser categorizado como um "Otimizador Metabólico". É para ser usado antes do treino (cerca de 15-30 minutos) e promete disposição, energia, vasodilatação (para melhorar o transporte de nutrientes nos vasos sanguíneos), força e recuperação muscular. Analisando os seus ingredientes, vê-se que possui creatina, arginina, beta-alanina e cafeína, até aqui nada demais, pois são ingredientes legalizados.

O problema aparece com a inclusão de dois ingredientes: Schizandrol-A e 1,3-Dimethylamylamine. Apesar do nome, não são substâncias anabolizantes esteróides (os famosos hormônios). Na verdade, são poderosos estimulantes do Sistema Nervoso Central (SNC), resultando em uma euforia e disposição acima do normal, deixando as pessoas (segundo relatos de usuários) transtornadas, elétricas, loucas. O Schizandrol-A parece também exercer efeito negativo sobre o cortisol (hormônio altamente catabólico). A 1,3-Dimethylamylamine, por sua vez, é bastante usada como droga recreacional (usada em festas) na Nova Zelândia. O problema é que não se sabe COMO essas substâncias trabalham, tampouco seus efeitos colaterais e se causam dependência química. A 1,3-Dimethylamine, inclusive, consta na lista de substâncias proibidas da Agência Mundial Anti-Doping.

Outra informação bem interessante é que ao entrarmos na página voltada para os suplementos, nas descrições são citadas inúmeras fontes bibliográficas para os prometidos efeitos milagrosos no intuito de enganar os consumidores tentando passar a imagem de "aprovado cientificamente". Essas fontes realmente são citadas, mas só para descrição de efeitos fisiológicos (que acontecem normalmente) no corpo humano, sem terem relação com o suplemento. Isso pode levar as pessoas a pensarem, equivocadamente, que o produto foi testado em humanos e comprovado que funciona, assim como que é seguro seu uso.

Algumas fontes noticiam que o Jack3d será proibido para venda nos EUA. É esperar pra ver.

Então, caros leitores, tenham cuidado quando ouvirem falar de algum suplemento, procurem saber quais são os ingredientes e busquem recomendação profissional. Muitos deles podem ser como o Jack3d, um produto proibido para venda no Brasil e que é um verdadeiro tiro no escuro, pois pouco se sabe como suas substâncias atuam sobre nossa saúde. E aí o que tinha como objetivo promover promover saúde, pode gerar consequências desagradáveis.

No próximo post falarei sobre o Lipo 6 Black. Até mais!

Referências

1. PANOSSIAN, A.; WIKMAN, G. Pharmacology of Schisandra chinensis Bail.: an overview of Russian research and uses in medicine. J Ethnopharmacol. Jul 23;118(2):183-212, 2008.